quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Das Horas Que Me Levam a Ti

“Se tu vens, por exemplo,
às quatro da tarde,
desde as três eu começarei
a ser feliz...”
Saint-Exupèry – O Pequeno Príncipe.


Clara checava as horas inquieta, seus pés impacientes de encontro ao chão, numa dança única, solitária. 18:00, 19:00 horas. Ele não chegaria as 20:00? Pronto, borboletas no estômago, seu coração querendo fugir do peito, o sorriso bobo estampado no rosto. 19:30. Abandonara o quarto, para investigar a janela minuto a minuto, na esperança de ver surgir o carro dele na esquina. Não, ainda faltava muito. 19:43. Se olhava no espelho, ajeitava a roupa, retocava o batom. Para quê? Se tirá-lo seria a primeira coisa que ele faria quando a visse. Sorriu, lembrando-se das vezes em que ela própria marcara o pescoço dele com os lábios.


19:50. Expectativa, ansiedade, vontade de transbordar de amor, inundá-lo com seus carinhos. 19:52, nova ida a janela, agora faltava pouco. 19:55. Esquecera-se do perfume. E outra vez, perdia-se em lembranças, do seu cheiro misturado ao dele, da paixão incontrolável que os consumia, da intensidade, do calor, da intimidade. 19:58. Bem que ele poderia chegar mais cedo, pensava Clara, sentindo o peito contrair-se de saudade. A presença dele a completava, preenchendo de amor, cada pedacinho seu vazio. Sua metade que faltava. 20:00 horas. O abraçaria, como se aquele fosse o último abraço, perderia seu fôlego, perdido entre beijos e afagos. Tão seus e dele.

20:05. Estava atrasado. 20:10. Será que havia acontecido alguma coisa? 20:12. O celular tocava a música dele, atendeu. – Amor, vou me atrasar um pouco, as 21:00 horas estarei chegando por aí. Estou com saudades. – Telefone mudo. Tristeza, o relógio adorava lhe pregar essas peças, atrasando por mais um tempo, sua tão esperada felicidade. Aquela pontada de saudade voltava a explodir em seu peito, saudade da voz, das mãos, das palavras, dos carinhos, do aconchego do seu ombro que possuía o encaixe perfeito para o seu rosto. 20:25. Procurava em vão pela casa algo pra se distrair, olhava para o computador, esperando por recados que não haveria, ligava a televisão, parando em qualquer programa, esperando que o tempo acelerasse seu compasso.

Por fim, uma cena romântica qualquer na novela, conseguira prender sua atenção. 21:00 horas. O assobio, o som que esperara o dia inteiro, que indicava que ele a esperava no portão. E o coração finalmente escapava do peito, enquanto descia as escadas com rapidez, maldizendo a distância entre sua casa e o portão. A única coisa que os separava, porque finalmente o tempo resolvera ser seu amigo e o trazia de volta para ela. O seu sorriso, o sorriso dele, o abraço sempre tão apertado, as lágrimas que teimavam em surgir nos seus olhos e nos dele, escondidas, tentando transbordar por se amar demais. E finalmente o beijo, a entrega total, a união do que os dois sentiam. E mais abraços e mais beijos. Mãos dadas. – Senti sua falta – Eu também.

Ah, e ele trouxera flores.